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Rio Amazonas Que queres que te diga? Fomos escutar o rio, aquele caudal discursivo de milhares de quilômetros, fala líquida e universal, ora calma, ora encapelada, a bramir sua força, a desdobrar sua multiplicidade de cheiros, cheiros inventados entre o limo e a terra, cheiros de vida e de morte, entrecruzadas. Depois, no Forte de São José, que deveria se chamar Forte dos Negros, tocamos na pedra desbastada enquanto no meu íntimo, encenou-se novamente o tear da morte, vida despedaçando-se naquelas autitudes, quando tudo ainda era força de mão de obra, suor e sangue. E ali, perto da floresta que não pudemos ir visitar, teci no meu coração, um refúgio de floresta outra, onde houvesse grama verde e cheirosa, e onde o rio ainda pudesse entoar para mim, uma canção de ninar.
Escrito por Joana às 15h36 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Miudezas do Acordar Como se, antes do café forte da manhã de domingo, meus pensamentos ficassem boiando num nevoeiro etéreo, tecendo tolices ternas ou sonâmbolas, como suaves cochichos de fantasmas. Lavo a louça do jantar de ontem, enquanto a onda dos pensamentos, etérea, agita-se em pequenos esboços de idéias, teorias, coisas de fazer rir. Seco as mãos no pano de prato, abro a geladeira, e dou com o pacotinho de iacutes. Comida de alma, diz a alegre silabaria dos meus pensamentos, enquanto o líquido desce esôfago abaixo. Vou preparar meu cuscus. Acendo o fósforo. E brinco com aquela chama vigorosa, antes de fazê-la cumprir a missão a que veio ao mundo, dar lume à primeira boca do fogão, a da direita. Eu e a chama, em comunhão, resguardando suspiros, escutando o leve crepitar de madeira tenra. Eu e a chama, e os pensamentos vasculhando possibilidades. Por que não se inventou um jeito de parar o fósforo? Por que não se poder usar o mesmo fósforo tantas vezes quantas forem necessárias? Plift. Um pedacinho de pólvora queimada caindo ao chão, haste quebradiça, sustentando a leve chama na minha manhã de domingo. Lá vem ela aquecer meu dedo, calorzinho bom de fogo inofensivo. Pronto. Acabou no balde de lixo, um toco de madeira que antes havia sido fósforo, chama, lume para os meus pensamentos fantasmas. Fatia de cuscus cheiroso no prato, untado com manteiga. Café bem forte fumegando na xícara. Estou de novo Escrito por Joana às 09h44 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Pastel de Frango Pastel de Frango A primeira coisa que me disse, quando lhe telefonei aquela noite, a primeira coisa que me disse, naquele seu jeito formal de falar, enfatizando os tons das últimas sílabas, separando as palavras por pausas, a primeira coisa que me disse foi que estava comendo pastel com a sua amiga Élvia Maria. Depois me contou da viagem, dos locais exóticos, mas eu nem prestava atenção, atenta que estava ao ruído de fundo, imaginando Élvia a se refestelar com um pastelão de frango, um sorriso largo sujo de massa, os farelos do petisco espalhados pela mesinha do quarto de hotel, aquelas mesinhas onde mal cabe uma refeição íntima, pequenos tampos de madeira a fingirem ser mesa. Ou seria eu que fingia escutar a sua conversa? Enquanto ele falava, eu pensava que o exercício de comer pastel com Élvia Maria o deixava árido. Ou seria eu que estava árida, segurando o telefone, mais parecendo aquele personagem da música do Raul seixas, sentada no trono do meu apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar? Amanhã pernoitaremos em Curitiba, ele disse. E eu, ouvido suspenso, não fosse perder o suspiro de prazer de Élvia Maria, a mastigar com todo zelo o miolo do frango desfiado do seu pastel. Despediu-se. Ia desligar. Fingi me lembrar de algo. Tentei entabular conversa. Preciso desligar, ele disse. Mas antes do clique, ainda pude ouvir a voz de Élvia Maria, boca cheia de pastel, voz brejeira, cheiadaquela alegria de noite de sexta-feira descuidada,, perguntando, Mando vir outro? Escrito por Joana às 10h21 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O Romance do Vaqueiro Voador Guardava tudo lá. Tuas cartas, as parcas fotografias de família, um panfleto de Café Filho, os documentos da casa, folhinhas amarelas de calendários, tudo lá, naquela lata de biscoito que você trouxe para ela, numa tarde quente de janeiro. Eu era tão pequena! Mas me lembro de você ter chegado com sua mala surrada, trazendo nos braços, no corpo todo, uma distância tão distante, tão distante, uma distância tão distante que você não tinha mais palavras. Me lembro quando você deu a lata de biscoitos à minha mãe, me lembro do sorriso dela, a apertar contra o peito a sua pequena fortuna. Minha mãe olhando nos seus olhos, pesando seu silêncio, tentando apreender de você todas as dores, as saudades, as visões de morte. Minha mãe procurando o filho que já não era seu, o seu Raimundo. E você soltou no meio da sala o que agora lhe pertencia. Você disse à minha mãe que agora era mestre de obras. Você disse aquilo como se rezasse, disse aquilo como se tentasse desvestir a pele de uma cidade construída sobre os seus mortos. Me lembrei de tudo hoje, enquanto assistia “O Romance do Vaqueiro Voador”. Mistura de linguagens, notícia sem jornal, e você no meio de tudo aquilo, raimundo. Você candango, cuspindo cimento, cuspindo a reforma, você tentando conter o bramido da saudade no peito sem gibão. Você vendo aquele montão de homens morrendo, você ocultando a lágrima e rezando, padre nossos pesados no terço da minha mãe. Vaqueiro voador, último abraço de cimento e ferro. Com você também foi assim mano. Abraço retardado de cimento e ferro, noutra construção, noutro lugar. Rio de Janeiro? Onde você estava quando a sina do vaqueiro veio lhe pegar? Escrito por Joana às 23h37 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Pititinga
Chegam em cardumes, reclinadas em folhas verdes, algumas mais claras, outras mais morenas, mornas, cheirosas e crepitantes. São as pititingas, essa peixaria miúda do mar de Salvador, cada uma cumprindo até à ´ltima fibra, sua sina de ser presa entre os dedos, entre os dentes, espicaçando a gula de todos os santos e demônios com seu alfabeto de sabores, regados à limão ou ao molho tártaro, ou a nadar suas pequenas sílabas gostosas sob a rega do vinho tinto. E essa palavra que rebenta, e que até o mar se cala para entender sua crocância... Pititinga. Que pescador lambeu pela primeira vez essas sílabas, enamorado do seu cardume, pulsante bando de alegres coisinhas a se debaterem frenéticas, à cata de uma última gota de liberdade, antes de unirem o sal do mar à quentura do fogo? E como elas se pescam? Ninguém me disse, ocupados que estavam todos com o exercício do descobrimento por entre suas tenras camadas de fibra, do íntimo e antigo cheiro do mar, esse mar de Salvador que tanto impressionou Caminha e que, com o mesmo gesto desprendido de a centenas de anos, entrega sua beleza aos caminhantes de agora. Comi cada pititinga que me coube, e foram muitas, pensando em ti, pensando em nós, e naquele modo que temos de nos alimentar, como os pássaros, entre bicadas carinhosas. Escrito por Joana às 12h27 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Luís Augusto Crispim Augusto. Como uma palmeira daquelas que se erguem na minha cidade, fortes, belas e vigorosas. E a voz monocórdia de sempre. Dei com ele enquanto fazia Zaping na tv, E como não podia vê-lo, surpreendeu-me algo como um conhecimento de antes, certa intimidade. E de repente, por aquelas misteriosas rodovias de neurônios que, por travessas improváveis se interconectam, vieram-me as lembranças íntegras da minha sala de aula, no início dos anos oitenta, no Departamento de artes e Comunicação. As aulas de Luís Augusto Crispim eram as primeiras, naquelas manhãs de uma universidade onde nós, muito jovens, inventávamos os primeiros gestos da nossa ação política, num curso de comunicação que esboçava os seus primeiros balbucios, junto com as cigarras, replicando sua antiga faina em favor do canto dos dias. Com as lembranças, um diáfano manto de saudade. Extratos das suas lições, repassadas de amor por essa cidade onde ele se sentia inteiro, feliz, reconhecido. O que mudou em nós? Que forças íntimas ou externas amalgamaram nosso ser de agora? Na voz de Crispim, reencontrei coisas que ele já possuía, quando era o meu mestre e nos ditava lições de ética. Encontrei a sua simpatia, encontrei aquele jeito estético de pensar e olhar para o mundo. Encontrei o mesmo cidadão de Jampa, que um dia, enquanto pesava as agruras da vida política, pensou em ir embora, mas ficou aqui, fascinado por esta cidade de Nossa Senhora das Neves, onde planta as suas palavras e colhe a nossa admiração, o nosso afeto.
Escrito por Joana às 20h47 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Jantar a Dois Sentada, sozinha, na minha sala de jantar, comia satisfeita minhas adoráveis rodelas de inhame com peito de frango assado, quando de repente ele veio sem aviso, vestido de distância,e como quem pega ao acaso um pedaço de pão, recomeçou aquela nossa conversa de tanto tempo, conversa banal, na mesa da sala da sua casa, as frases agora adoçadas por uma saudade que não havia antes. Meu pai adorava peito de frango assado. Na partilha da galinha de domingo, num gesto mecânico, minha mãe separava a parte dele e ali naquela mesa cheia de gente ávida por molho pardo, cumpria-se o rito sagrado de honra ao senhor do trabalho, a saborear seu naco de carne e a nos contar suas histórias de terras. Silenciosa, minha mãe deslindava com maestria o dicionário das nossas preferências. Para mim, o fígado, a entre-coxa, e, se possível, uma asinha. A muela era de Manuel e, para todos, a silabaria comum da rega do molho pardo. No meu prato raso de porcelana clara, cortei e comi devagar as três fatias de peito de frango assado, rindo com meu pai, escutando o som da sua conversa, sentindo o brilho do seu sorriso, tudo como música de fundo para o meu jantar a dois, na minha mesa de quatro lugares. Naqueles poucos minutos quentes, cheios de sons encantados, desenrolamos a nossa vida, desenredamos a cortina das lembranças, pejadas de um vago esquecimento. Filhos indo embora, filhos casando, a casa ficando maior. E sempre a se cumprir, aquela promessa do peito de frango no almoço de domingo. Até que um dia... Regamos nossas lágrimas com canja de galinha, numa mesa tão comprida, tão despovoadas das suas facas de trinchar. Fiquei junto do meu pai, e naquela hora não dissemos nada, mas cada um, do seu jeito, acalentou o coração do outro. Mas eu sabia, meu pai agora tecia já o lençol comprido da sua solidão, e sequer se importava com a inutilidade do seu tempo, a recolher do mundo todas as suas histórias. Limpei a boca com o guardanapo de papel, e quase que senti, aquele peteleco divertido que ele me dava na orelha. Sorriu para mim, seu riso orgulhoso de menino antigo e voltou para o seu lugar de bruma, onde sei que é feliz. Escrito por Joana às 08h47 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Day After O luto das horas, vive-se no silêncio. O corpo ainda quente da paixão atado aos lençóis da tristeza, aprendiz da inércia e do sono. Então que dia é esse, amanhecido entre os pássaros, travessura de minutos pendurados nas cordas da brisa amanhecida, a reinventar seus mantras de acordar? Domingo. Nove de março. Na praça da Paz, restos da alegria de ontem, as indeléveis marcas da dança ao som da voz de Cátia, de França? Cátia de Jampa, Cátia dos Ipês e das acácias. E o vento vibra varanda a dentro, e vem beijar minhas rosas amarelas, milagrosamente vivas. E um vento frio, dentro de mim, inventa os ecos das palavras de ordem das mulheres afegãs, a pedirem direitos. Experimento escrever a crônica do dia seguinte, mas as palavras se tingem da corrosão do mar, a repetir o mantra de desfazer as suas ondas mornas, salpicos tenros das sílabas do verão, num pedaço de planeta que corre febrilmente, para onde? Escrito por Joana às 09h41 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Valéria no país das Formigas À querida amiga, Valéria Rezende, pelo seu aniversário
Valéria saiu daquela tertúlia literária com uma frase incômoda pegada na cabeça. Nem se lembrava agora quem tinha dito aquilo. Um jovem escriba? Ou teria sido o velho do cordel? A frase tinha visgo e se agarrara nela, como um bastão, um archote, que agora a conduzia por lugares tão esquisitos, tão esquisitos, que parecia até que ela estava vivendo “A Paixão Segundo G H às avessas”, instigada por algum bicho esquisito, de semi-olhos à espreita, nos desvãos, nos cantos escuros, nos pequenos pontos de luz. “A pessoa é o que quiser ser”, tinha dito o tal da tertúlia. Uma frase comum, garimpada em qualquer quintal. O problema era o que ela havia feito com Valéria. Ao modo de um gancho velho, tinha se espetado no seu cérebro, e agora a sacudia de lá para cá, naquele esquisito labirinto. “A pessoa é o que quiser ser. E o que tinha sido Valéria”? Valéria achava que tinha sido distraída. Mas distraída pelo quê? Distraída por quem? Debruçada nesse vagalhão de sílabas, tentava irremediavelmente voltar para casa, mas... qual! Valéria se via solta num mundo sem paredes e teto, uma casa muito engraçada, onde sequer se podia fazer xixi. Distraída pelo quê? Ou por quem? A resposta veio sem aviso, duma brecha, duma quina de portal. Por toda a sua vida, Valéria se distraíra do mundo por causa de uma formiga. A quanto tempo tinha acontecido? Que importava a linha do tempo? Pois tudo tinha começado um dia em que ela resolveu desenrolar o novelo de lã da sua avó. Tanta linha, tanta linha, e ela seguindo aquela meada cor de ouro, seguindo e seguindo, até que ouviu um estrondo. Um grito. A indignação da avó tinha estridências, tinha bater de portas e chibatas. Valéria correu assombrada pela força da ira da avó, e pelo encanto da meada amarela. Foi assim que deu com a fila das formigas. Uma trilha estranhamente parecida com a meada da avó. E viu, viu o olho daquela formiga forrageira apontando um lugar, um buraco, um vazio... Valéria já não sabia se fugira da ira da avó ou do olho fito da formiga forrageira. O certo é que Valéria distraiu-se do mundo, Vasto Mundo e aprendeu a caça do nada. Do nada? Valéria caçava coisas que não sabia o que eram, e por isso inventou modos de apanhar pássaros à mão, e teve até um dia em que pegou uma guará vermelha, tão linda tão linda, e apertou tanto a bichinha junto do coração, que quando aquele contador de estórias veio buscar sua ave, só ficou com despojos e penas e uma tinta vermelha a tisnar os seus sonhos. Valéria nem quisera ser essa pessoa distraída do mundo que era. Tudo era culpa do olho da formiga, fito na íris do seu olho, tudo por causa do novelo da avó, tão lindo, tão lindo, todo derramado na terra do quintal. E do topo daquele labirinto, Valéria escutou um estrondo, um estalar de galhos, um destampar de garrafas. Céus! Era a festa do seu... do seu... Quantos aniversários Valéria já tinha vivido distraída do mundo? Com um safanão, Valéria quis livrar-se da frase da tertúlia, do olho da formiga, e como numa homenagem à avó, rezou, ou quis rezar, mas da sua boca só saiu aquele esguicho, aquele rabicho amarelo de palavras, “...formigas em fila, cochicham cochicham, assunto de bicho”. Escrito por Joana às 10h26 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] "O Sétimo Selo" Saí da leitura de “O Sétimo Selo”, último romance de José rodrigues dos Santos, munida com duas certezas: O escritor de “A Fórmula de Deus”, tem um longo e bem sucedido caminho de criatividade a percorrer, situando-se entre aqueles escritores que foram aguilhoados pela pontada do inconformismo, da denúncia, da pesquisa e da perquirição. A segunda certeza, eu a partilho com o próprio José rodrigues dos Santos. O futuro da humanidade, ou, como eu gosto de dizer aos meus alunos de jornalismo, o futuro dos seres de carbono será sombrio. “O Sétimo Selo” exibe o meticuloso trabalho do jornalista José Rodrigues dos Santos. O traço do escritor é leve, muitas vezes quase coloquial, repetindo-se aqui o exercício de “A Fórmula de Deus”, onde o autor traz para a linguagem comum, os grandes dilemas da ciência, das religiões, do esoterismo e das origens da vida. Nos reencontramos com Tomás Noronha, que era também o personagem principal de “A Fórmula de Deus”, que na sua argúcia de criptoanalista, desvenda logo uma mensagem codificada, e, sem o saber, coloca os gangsters das indústrias petrolíferas no encalço dos cientistas que trabalham na busca da descoberta de uma fonte de energia alternativa que venha substituir o ouro negro. José Rodrigues não perde tempo com os detalhes do trabalho criptoanalítico. De pronto, envolve o leitor nas intrincadas malhas da indústria petrolífera mundial, mostrando que, seja pela via do ganancioso capitalismo neoliberal, seja pela via das políticas desenvolvimentistas dos vários países do mundo, nosso futuro está engessado pelo sustentáculo desse modelo energético de sustentação da economia, ou seja, o uso do petróleo como energia fundamental. Alimentado por laboriosa pesquisa documental, e com leves pinceladas de uma escrita exata, substantiva, o autor nos mostra a verdade que a grande imprensa sequer ousa tocar. Na maioria dos países produtores/exportadores de petróleo, a produção alcançou um pico, o que significa dizer que caminha inexoravelmente para o esgotamento. O trabalho de perquirição de José Rodrigues vai mais longe. Nos apresenta o dilema para o qual nos empurra o aquecimento global, claramente forjado pela ação humana. E crava diante de nós, perguntas simples, que só têm merecido a indiferença da política e da economia mundial, e mesmo a indiferença da responsabilidade pessoal de cada um, obscurecida pela busca do consumo e do conforto fácil. Quem vai pagar a conta do aquecimento global? Para onde nos empurrará o planeta, em seu quente desequilíbrio? O tema da velhice humana, é mais uma linha aguda e sombria no romance de José Rodrigues. Um ícone do próprio envelhecimento da humanidade, presa num gargalo irracional, a cultivar seus dogmas, a endeusar seus carros de luxo, indiferente ao safanão, à parada breve, numa esquina qualquer de um mundo que tende a descambar, irremediavelmente. O Sétimo Selo José Rodrigues dos Santos Gradiva, 2007. Escrito por Joana às 10h56 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Receita de Lasanha Antes que a água na panela atinja o ponto de fervura, antes que o macarrão esteja ao dente, antes que o molho de tomate grite seu vermelho cheiroso, antes que as fatias de queijo fininhas, repousadas naquela vasilha laranja, venham cobrir a nossa quase lasanha de almoço, queria te contar uma coisa. Não, nada importante, nada que não pudesse esperar, mas eu queria te dizer agora, enquanto as palavras ainda não rebentaram a crosta do pensado, enquanto ainda ninguém escutou o entrechocar das sílabas, lábio contra lábio, depois do exercício da língua, no céu da boca, na quilha dos dentes. Olha, é só o tempo de mergulhar a alface americana no molho de vinagre, e de temperar a proteína de soja com um pouco de shoyo. Sonho? Não. Não foi sonho o que eu disse. Falei de shoyo, que é bom para regar a soja. Mas o que eu queria te dizer não tem a ver com shoyo. Não, nada a ver com o que deu hoje na tv, sobre os pais suspeitos de terem sumido com a filha. O que eu queria te dizer me veio sem aviso, como um recado soprado pelo vento, ou pelo canto do pássaro, naquela jardineira do sexto andar. Não queres saber? Então nem esperas pela lasanha? Pois vou devolver ao vento essas sílabas de nada, arranjo tolo, sujo da terra das palavras: É somente a doçura do teu espírito que se tinge do pólen do jardim. Escrito por Joana às 10h40 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] A Visita I Da primeira vez, foi ele próprio que me levou a visitar sua casa. Descemos do carro e atravessamos o jardim, e antes de cumprimentar à sua mulher, ele me mostrou o balanço de madeira, na varanda ampla e cheia de brisa. Eu era tão jovem com meu conjunto xadrez de blusa e mini-saia... Sentei-me no balanço para não ver as lágrimas da mulher, ocultas por seus óculos escuros, à espera para me cumprimentar, com dois beijos suaves na minha cara tisnada pelo sol de verão. Comemos sopa de pão na mesa grande da sala de jantar e eram as colheres, no seu mergulho ritimado, as únicas coisas a esforçarem-se para imprimir alegria àquela visita. II Um dia, mais precisamente no meio de uma tarde quente ele me telefonou. Estava doente. Prometi a mim mesma, várias vezes, que iria visitá-lo. Prometi que levaria meus óculos escuros, Prometi que levaria um estoque dos meus melhores sorrisos. Prometi levar as fotos das minhas filhas, e até separei aquelas em que o meu marido não aparecia. Prometi sentar-me no balanço da varanda, antes de voltar para minha casa. Vou hoje? Não ia. Iria no sábado. Até escolhi o vestido florido de azul e aquela minha bolsa de palha. Prenderia o cabelo, o que me daria um ar de parecer com minha filha, Passaria um pouco de rouge. Nunca fui visitá-lo. III Ontem nos encontramos por acaso. Não, não foi por acaso. Nos encontramos numa curva improvável do tempo, num ônibus lotado. Ele sentado junto de mim, a chamar a minha atenção, tocando-me no braço. Ainda está doente. Percebi isso porque suas mãos tremeram quando segurou as minhas. Descemos do ônibus de mãos dadas. Vimos logo que tínhamos nos enganado da parada. Retrocedemos de mãos dadas, falando sempre. Acordei dentro da madrugada, tremendo de frio. Prometi que vou visitá-lo. Já separei o vestido branco e não passo nada na minha cara. Levo meus óculos escuros no alto da cabeça, por causa do vento de agosto. Escrito por Joana às 10h20 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] A Terceira Filha Foi acordando aos poucos, como uma peregrina, uma vendedora de mercado, uma menina rebelde, a subir pelas árvores, a correr atrás dos preás, na mata cerrada. Mas sobretudo gostava de se mirar, no espelho das águas, olho grande fito no sonho de crescer, aprender sobre abrigos de ternura, acolhida, aprender como se gesta a violência, numa esquina qualquer de tempo e espaço, aprender da justiça e da sua balança, aprender sobre a festa, a pesca, o plantio, a colheita, os dedos sujos de todos os tons de verde. E somente acordou daquela miragem quando escutou o primeiro grito do seu batismo. Filipéia! Filipéia! O nome mergulhando no rio, subindo nas árvores, correndo pela mata atrás dos preás. Filipéia correu para a igreja deserta, os olhos pesados de pranto, e rezou, rezou à virgem daquela igreja. “Quero ser livre. Quero poder falar do meu próprio jeito.Quero ser conhecida pelos nomes dos meus rios, das madeiras de lei da minha mata. Quero um nome nascido do coração de uma criança, ou um outro que surja da força do rio, ou da ternura da índia, a amamentar seu filho no peito. E, no dia seguinte, enquanto se mirava nas águas do rio, Filipéia de Nossa Senhora das Neves escutou, da boca da virgem, o segundo chamado. Cidade das acácias! Cidade das Acácias! O nome mergulhou, no fofo da terra ávida por receber semente, e cidade se floriu, e cidade se perfumou, e foi cumprir o destino brejeiro de dançar ciranda, olho fito na lua cheia, pés a bailar na areia tépida das noites de festa. E das águas de março, da palha verde do milho de junho, das saias arregaçadas pelo vento de agosto, cidade teceu a guerra, e, no dia dos seus anos, diante da virgem, escutou a batida do carimbo, e se tornou pessoa. Pessoa? João Pessoa recebeu o seu último nome da ordem da lei, e ajoelhada sob a umidade do rio, prometeu ser grande. Terceira filha do seu pai Brasil, roupa verde para todas as horas, curvas insinuantes do mar, abraçado à linha do equador, a desatar o sol, nos seus primeiros raios, Jampa retesou-se no vigor dos seus coqueiros, das suas palmeiras imperiais, e inventou os girassóis,os girassóis mágicos da arte e do trabalho. Amanhecida, lavada de orvalho, Jampa, a terceira filha, no dia dos seus 422 anos, pede à virgem que a deixe assim, mata e cidade, mar e cidade, canto e cidade,jardim das acácias e dos ipês, braço de terra a sustentar a dança do mar, cidade da praça, da paz... Escrito por Joana às 07h29 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] "Pobres e Nojentas" Cansei de ter que ir todo dia, faxinar a pasta quarentena do anti-spam do uol. Centenas de e-mails de lixeratura barata, para garimpar, no meio daquilo, um ou dois remetentes que eu teria que autorizar. Ontem, depois de haver esgotado o estoque de desaforos para com o uol, que se limita a proteger seus assinantes com um anti-spam que nem sempre funciona, enchi de vez a sacola e abri a porteira. Agora recebo sem culpa propaganda de viagra, receitas para aumentar o tamanho do pênis que não tenho, links para clicar numa foto de um suposto amigo de infância, supostamente tirada nas filipinas, onde lamentavelmente eu nunca estive. Chegam também rosnadelas do Mercado Livre, dizendo que eu não me comportei como uma boa vendedora, embora eu nunca tenha sequer tentado vender minha alma nesse bazar capitalista virtual. Com uma dorzinha no dedo indicador da mão direita, de tanto fazer delet, estaquei numa coisa boa. A interessante criação de “A Companhia dos Loucos”, mais precisamente a revista “Pobres e Nojentas”, que este mês está completando um ano de irreverência, ousadia e criatividade, invertendo a poderosa pirâmide do jornalismo, e escrevendo sobre quem não tem vez nem voz, na grande mídia nacional. Respirando a liberdade ao mesmo tempo dolorida e feliz de haver aberto as comportas da minha caixa de correio, li deliciada essa turma, e recomendo que visitem e apóiem: http://www.pobresenojentas.org/ Escrito por Joana às 10h46 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Amanhecências 2 Queres saber, 28 de julho? És único no mundo, no calendário dos dias e na engrenagem cósmica que forjou a tua manhã. Ainda que o gesto de estar aqui, sentada no sofá da sala, digitando esse post já tenha se repetido tantas vezes, esse gesto comunga da tua novidade, porque esboça-se sob as cores da tua manhã. E na rua, os carros, os cachorros, as famílias, passantes de todos os dias, estão envoltos pelo manto da tua manhã, tênue e diáfano, iluminado pelo sol, enfeitado por pequenas gotas de orvalho que ainda se deixam deslizar, suavemente, dos galhos mais altos das árvores. E o bem-te-vi, que quase estoura de canto, sabe o segredo de não se contar o tempo, de viver cada manhã a passar a limpo o mesmo que fez ontem, e antes de ontem, e sempre, por toda eternidade em que houve bem-te-vis, nos ninhos do mundo. Olha, 28 de julho. Parecem ser as mesmas conversas que se abrem dentro das casas. Bocejos, espreguiçadelas, amor breve e cheio de desejo, enquanto o vento força as persianas, da janela do quarto de dormir. O amor, a lida na cozinha, a revista atirada ao chão, depois da sanha da tesoura, tudo habita o casulo novo da manhã, ao mesmo tempo, quente de antiguidade e cheio de recantos onde a surpresa se gesta, em travesso entrançado de imprevisibilidade, de imponderabilidade. E não é um milagre que aquele gato lindo, todo malhado, esteja ali, a mastigar com o corpo todo a sua fatia de sol¿ Sim, é um milagre, porque eu vi aquele gato outra manhã, a correr pela rua, a disputar espaço com a violência dos carros, sua malha a brilhar sob o sol. Pois está ali, o gato malhado, a dormitar a novidade desta manhã. E comigo, vive intacto o meu amor de ontem, renovado hoje, pela cúpula da tua manhã. Escrito por Joana às 07h55 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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